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17/02/2022

Amigo Imaginário




Antes de tudo, é um absurdo comparar o livro de Stepehn Chbosky com It de Stephen King. O motivo é bem simples: enquanto você devora com avidez as mais de 1.000 páginas de It, em Amigo Imaginário, você empaca e se não for persistente, acaba desistindo da leitura.

De fato, é uma pena, porque o plot da obra de Chobosky é muito bom. Expondo de uma maneira bem resumida, é a história de uma criança que tem o poder de vagar entre o mundo real e o mundo imaginário. Neste último, ele acaba encontrando um amigo – o tal ‘amigo imaginário’ - que o alerta de uma grande catástrofe que poderá ocorrer no mundo real caso, o garoto, não consiga impedir uma trama diabólica que vem sendo engendrada por uma entidade maligna que vive no mundo imaginário.

O problema é que o autor enche o enredo de linguiça; enrola muito, mas muito mesmo. Na minha opinião, se ele tivesse reduzido as mais de 750 para 350 ou 400, teria em mãos uma história incrível, perto da unanimidade e não um divisor de águas com uma parte dos leitores detestando e a outra adorando.




Além da história excessivamente longa, um outro problema ao qual ‘batizei’ de “poda de narrativa” contribui para deixar o enredo ainda mais cansativo, além de fazer com que o leitor vá perdendo, aos poucos, a paciência. “Poda de narrativa” – termo criado por mim – é aquele momento em que o enredo está perto do clímax e o autor opta por cortar abruptamente esse clímax pulando para um novo capítulo, diga-se de passagem, um capítulo bem morno. Esse capítulo do clímax que acendeu a curiosidade do leitor só volta depois de ‘uns’ três ou quatro capítulos desinteressantes, isso por causa da grande quantidade de personagens que fazem parte do enredo. Agora imagine só enfrentar toda essa agonia em mais de 750 páginas. Aliás, o enredo tem tantos desses capítulos anti-climax que a leitura entra numa espiral desgastante.

É uma pena que o excesso de páginas de Amigo Imaginário matou a narrativa que tinha todos os elementos necessários para compor um plot fantástico, ou seja: ‘enredo-raiz’ e personagens muito bons, recheados com reviravoltas interessantes. Na minha opinião, até mesmo as referências religiosas que fazem parte da narrativa e que incomodaram alguns leitores, acabaram dando um toque especial ao livro. A reviravolta, perto do final, envolvendo um personagem importante do mundo imaginário é a prova disso.

Chbosky, poxa vida, bem que você poderia ter optado por uma narrativa mais enxuta.



09/02/2022

Flores para Algernon



Não espere um livro com grandes plot twists, aliás, Flores para Algermnon não tem nenhuma reviravolta bombástica na história. Tanto é verdade que logo no início da trama, eu já imaginava qual seria o final e adivinhem? Acertei em cheio! Começando a resenha dessa forma, fica a impressão de que o livro de Daniel Keys é algo sem sal e sem açúcar, enfim uma leitura nada atraente. Mero engano. Na realidade, Flores para Algernon é maravilhoso, uma leitura cativante e emocionante. Aliás, para uma obra literária ser boa não é preciso que ela esteja recheada de plot twists. Conheço várias narrativas ruins que tem inúmeras reviravoltas, por outro lado, conheço muitas narrativas excelentes e sem nenhum twist. Flores para Algernon se encaixa nessa segunda categoria.

Além de ter me emocionado muito, a história de Charlie Gordon fez com que a minha empatia por pessoas com deficiências intelectuais crescesse ainda mais. A narrativa de Keys é um tapa na cara de muitas pessoas que não dão a devida atenção para adultos ou crianças portadoras desse tipo de transtorno, transformando-os em vítimas de bullying ou simplesmente ignorando-as. A minha vontade, quando terminei a leitura, era a de esfregar o livro na cara dessas pessoas. Verdade! A história, de tão profunda e emocionante, mexe muito, mas muito com a gente.

A história é escrita em primeira pessoa, na forma de epístolas pelo personagem Charlie Gordon que sofre de retardo mental. Ele trabalha em uma padaria onde é um bom funcionário. Apesar de ter amigos no ambiente de trabalho, quase sempre acaba sendo vítima de brincadeiras de mau gosto por esses supostos “amigos”.

Depois de algum tempo, Charlie é selecionado para ser o primeiro humano a passar por uma cirurgia revolucionária que promete aumentar o QI do paciente transformando-o num ser humano com uma capacidade intelectual espantosa. Em um avanço científico sem precedentes, a inteligência do personagem aumenta tanto que ultrapassa a dos médicos que planejaram o experimento. Entretanto, Charlie passa a ter novas percepções da realidade e começa a refletir sobre suas relações sociais e até sobre o papel de sua existência.

Os trechos do livro que mostram o relacionamento de Charlie com Alice, a sua professora da escola de alunos com deficiência mental, são os mais fortes e emocionantes da narrativa, principalmente depois que ele atinge o limite de seu QI, tornando-se uma pessoa extraordinariamente inteligente. Esta mudança acaba interferindo até mesmo em sua interação com as pessoas que tem um QI elevado – os chamados gênios – e muito mais ainda com aquelas de QI normal. Isto porque a sua inteligência, após a operação, chega a ultrapassar todos os limites.

Outro momento forte do livro e que desperta um sentimento de raiva no leitor é relacionamento de Charlie com a sua mãe e com a sua irmã quando ainda sofria de retardo mental. Cara, abusivo demais! Que ódio dessas duas mulheres!

A conclusão do enredo, mesmo não sendo nenhuma novidade e até mesmo obvio, emociona pra caramba.

O autor foi muito criativo ao optar por desenvolver a sua narrativa em primeira pessoa na forma de um diário onde Charlie vai escrevendo passagens de sua vida. No início, a sua escrita é cheia de erros crassos de português, mas depois conforme a sua inteligência vai avançando, esses erros também vão desaparecendo e o seu texto ganha uma escrita perfeita. Achei um lance bem inovador por parte de Keys.


Flores para Algernon foi escrito na forma de conto e publicado pela primeira vez em 1958 numa revista de fantasia e ficção científica, ganhando o Prêmio Hugo de Melhor Conto em 1960. O romance foi publicado em 1966 e foi co-vencedor do mesmo ano do Prêmio Nebula para Melhor Novela.

A ideia de Keys em escrever a história surgiu durante um momento crucial, em 1957, enquanto Keyes ensinava inglês a alunos com necessidades especiais. Um desses alunos perguntou-lhe se seria possível ser colocado em uma classe comum (regular) se ele trabalhasse muito e se tornasse inteligente. Esse foi o gatilho para escrever Flores para Algernon.

O livro fez tanto sucesso no decorrer dos anos que ganhou várias adaptações para a TV e o cinema, sendo a mais famosa delas “Os Dois Mundos de Charly” de 1968 e que rendeu o Oscar de ‘Melhor Ator’ para Cliff Robertson.

Antes de encerrar essa resenha gostaria de revelar quem é o Algernon do título do romance de Keys. Tudo bem, fique despreocupado porque não darei spoilers. Vamos lá. Algernon é um rato de laboratório que serviu de cobaia no experimento científico. O animal foi o primeiro a passar pela cirurgia para aumentar a inteligência. Quanto as “Flores” que também fazem parte do título, bem... só lendo a história para compreender.

A leitura valeu muito a pena.



19/01/2022

Verity

 

Verity de Colleen Hoover é um excelente thriller psicológico. A autora acertou a mão, ou melhor, acertou apenas em parte porque o final ficou devendo, e devendo muito. Olha, cá entre nós, detesto, mas literalmente detesto finais arregaçados. Classifico os finais de narrativas de fechados, abertos e arregaçados.

Os fechados são aqueles finais bem amarrados, conclusivos, onde o autor não deixa nenhum fio solto em relação ao destino dos principais personagens; não importa se ele puxa sardinha para o lado do vilão ou dos heróis e heroínas. O que importa é que a sua história tem começo, meio e fim.

O final aberto é aquele em que o autor lança uma pequena dúvida na cabeça do leitor. Vejam bem, eu disse uma pequena dúvida; aliás, tão pequena, que chega a beirar o óbvio, mas mesmo assim, ainda sobra espaço para semear uma duvidazinha bemvinda em nossas cabeças.

Por fim, temos o final arregaçado. Este é brabo. É o momento em que o autor – me desculpe a expressão – abre as pernas na conclusão de sua história plantando uma dúvida tão grande na cabeça de seus leitores que eles não sabem se seguem o caminho da direita, da esquerda ou do meio.

A impressão que fica nos finais arregaçados é que o autor terminou a história de afogadilho ou então não quis assumir a responsabilidade de concluí-la e assim, acaba jogando essa responsabilidade no colo dos seus leitores. Como se dissessem: “Vai, vê aí o que você faz”.  

Na minha opinião, a carta escrita por um personagem de Verity publicada nos capítulos finais do livro e que teria por objetivo fechar a contento a trama, na verdade, acabou plantando uma baita dúvida, dando um nó nos neurônios da galera. “Será que fulano ou fulana agiu, de fato, dessa forma ou não”? Odeio duvidas desse tipo; não por ser preguiçoso para imaginar conclusões de finais alternativos, é que... não gosto de livros sem finais. Opinando ainda sobre esse assunto, acredito que faltou conectar o final da história com um fato importante – aliás bem chocante e violento - que acontece logo nas primeiras páginas. Faltou também estabelecer uma conexão do final com uma disfunção sofrida por determinada personagem ao longo de toda a narrativa. Quando vi a capa do livro, juro que pensei que essa disfunção orgânica que afetava a rotina de vida da referida personagem estava diretamente relacionada com o final, o que na minha leiga opinião, daria um “The End” bombástico para a trama; mas não tinha nada a ver. Tudo não passava de fatos isolados.

Quanto a narrativa – excluindo o final – é muito boa. Um baita thriller psicológico e que mete um medinho danado em alguns trechos. Teve momentos que fiquei incomodado já que li a maior parte da obra durante altas horas da noite. Pena que o final mata a pau e no mau sentido.

Em Verity, Hoover narra a história de uma escritora medíocre e muito chata (achei isso) que faz o mínimo do mínimo para sobreviver, mas num golpe de sorte, acaba sendo contratada para ser coautora de uma saga literária de grande sucesso, já que a autora chamada Verity Crawford, está incapacitada após ter sofrido um grave acidente que a deixou completamente debilitada. Então, a coautora medíocre vai morar na mansão da famosa Verity para poder entender melhor sobre os livros que ela irá dar continuidade. Bem resumidamente, o plot do livro é esse.

Muitos leitores consideram Verity um divisor de águas por causa do seu final; alguns gostaram, mas uma grande parte detestou.

19/12/2021

Contos Estranhos



Dos nove contos, devorei seis. Acredito que se tirarmos a média, Contos Estranhos de Bram Stoker passa no teste. Pelo menos no meu teste, pois pode acontecer de outros leitores detestarem as histórias das quais gostei. Mas no meu caso, achei as narrativas da hora, algumas, inclusive, com o poder de meter um medo bem incômodo na gente como “India”, “A Profecia Cigana” e “O Hóspede de Drácula”. E sabemos que uma história de terror “nível A” tem que arranhar, cutucar, raspar os nervos do leitor, e essas três incomodam, de verdade. As outras três que gostei, mesmo sendo mais amenas e sem esse poder de fogo, também prendem a atenção.

Os contos foram publicados por Florence Bram Stoker, viúva do famoso escritor. Segundo ela, alguns meses, antes da penosa morte de seu marido, ele planejava a publicação de três conjuntos de contos, Contos Estranhos é um deles e originalmente teria oito histórias e não nove. Acontece que Florence decidiu acrescentar à coletânea o conto “O Hóspede de Drácula” – episódio até então inédito de Drácula, obra prima de Bram Stoker.

O conto foi originalmente excluído devido à extensão do romance. De acordo com Florence, se o episódio fosse acrescentado à narrativa, Drácula teria um número de páginas bem aquém do planejado pelo autor. Dessa forma, o capítulo acabou sendo “rifado” do livro e engavetado.

Ao decidir lançar uma das coletâneas do marido, Florence optou por incluir “O Hóspede de Drácula”. E posso garantir que a narrativa tem todo aquele clima de mistério e medo do conhecido romance de terror que com o passar dos anos ganhou o status de antológico.

Quanto a edição em capa dura de Contos Estranhos, caráculas... que show! Vê só: capa hiper trabalhada em alto relevo e com todo aquele clima de mistério; divisórias dos contos com layout preto e título em letras góticas; folhas amareladas, de qualidade impecável; fontes em ótimo tamanho, facilitando, assim, a leitura; enfim, uma edição caprichada da editora Nova Fronteira.

A boa notícia é que incialmente, o livro só podia ser encontrado no box Grandes Obras de Bram Stoker juntamente com outros dois volumes: Os Sete Dedos da Morte / A Toca do Verme Branco e Drácula. Para isso, os interessados tinham que desembolsar perto de R$ 90,00. Agora, Contos Estranhos pode ser encontrado à venda, separadamente, na Amazon, por apenas R$ 29,90.

Confiram um breve resumo (sem spoilers) dos nove contos. Vamos lá.

01 – O hóspede de Drácula



Trata-se de um conto com as mesmas características sombrias de Drácula. Também não poderia ser diferente já que a história faria parte romance, só sendo excluída porque deixaria o livro de Stoker muito extenso. Nele, Jonathan Harker ao visitar o castelo do Conde Drácula pede ao seu cocheiro que pare a carruagem próximo a um vale abandonado para que ele possa explorá-lo. Apesar dos apelos do cocheiro para que ele não faça isso, Harker, teimosamente, segue pelo vale, então... a ‘cobra fuma’.

02 – A casa do juiz




Um jovem universitário resolve alugar uma casa abandonada numa pequena cidade com o objetivo de encontrar paz e tranquilidade para estudar, visando os exames de final de ano. Então, por indicação de um corretor, ele aluga uma casa que pertenceu, no passado, a um juiz muito maldoso que executava cruelmente todos aqueles que julgava. Já deu para perceber que esse jovem estudante vai passar por um perrengue danado.

03 – A índia





Na minha opinião, o melhor conto do livro. Apesar de adorar gatos, juro que fiquei meio que... assim... desconfiado com os bichanos. Por ser um conto curto, menos de 15 páginas, qualquer linha que eu escreva já corro o risco de imputar spoiler na resenha. Portanto, basta ‘dizer’ que um homem muito convencido e garganteador sofre horrores quando mata acidentalmente o filhote de um gato. Cara... esse conto me arrepiou. A história tem um clima daqueles seriados antigos do tipo “Galeria do Terror” e “Além da Imaginação”.

04 – O segredo do ouro crescente




Achei fraquinho. Um homem trai a sua mulher, ou seja, resolve dar aquela puladinha de cerca. Acontece que além da tal puladinha, ele resolve fazer algo pior com a esposa traída. Resultado: ele acaba pagando caro pela sua atitude.

05 – A profecia da cigana



Viche! Este incomoda! Um homem que vive maravilhosamente bem com a sua jovem esposa convida o amigo para visitar um acampamento cigano que está nas imediações. Os dois pretendem apenas passar o tempo, já que não acreditam em superstições ciganas. Ao chegarem no local, uma ciganinha pede para ler a mão do rapaz casado. A menina ao ler a mão do homem sai correndo assustado e vai chamar a matriarca do acampamento que, por sua vez, também lê a mão do homem e também se assusta. Então a cigana revela o futuro aterrador e arrepiante do pobre coitado.

06 – A vinda de Abel Behenna




Dois rapazes lutam pelo amor da mesma mulher. Então, ambos decidem fazer uma aposta para saber qual dos dois ficará com a amada. Acontece que o perdedor não aceita a derrota e tenta de todas as maneiras passar a perna no vencedor. Conto que mostra o pior lado da personalidade humana e com um final surpreendente.

07 – O enterro dos ratos




Um conto instigante capaz de fazer com que o leitor entre na pele do “pobre” personagem que sofre horrores ao tentar escapar de uma horda de perseguidores ‘muuuito’ estranhos. A tensão criada em torno do inglês que passava seus dias em Paris e que se meteu numa encrenca danada ao visitar o lado mais sombrio da cidade deixa o leitor angustiado.

08 – Sonho com mãos vermelhas




Não gostei. Confuso e morno, para não dizer frio. Um homem tem pesadelos terríveis por causa de um segredo que guarda a sete chaves; algo abominável que ele fez no passado. Durante a narrativa, ele vai revelando esse segredo a um amigo até chegar ao final que deveria ter sido surpreendente, mas na minha opinião... não foi.

09 – Crooken Sands



Outro continho chato pra dedéu. Um empresário muito bem sucedido resolve visitar a Escócia, mas usando um kilt - uma espécie de saia de lã feita de um tecido em padrões xadrez. Ao chegar no seu destino, uma força misteriosa obriga o personagem a usar sempre o traje e só tirá-lo para dormir. A sua teimosia acaba causando um clima pesado com sua mulher e filhos que não aceitam tal atitude. Achei o final muito chocho, sem medo, sem tensão, sem impacto... sem tudo.

Taí galera, apesar dessas três histórias fracas, recomendo a compra de Contos Estranhos porque as outras seis narrativas arrebentam a boca do balão e valem muito a pena.

Boa leitura!

12/12/2021

O Senhor da Guerra (Crônicas Saxônicas – Livro 13)

Sou suspeito para comentar qualquer um dos 13 livros da saga “Crônicas Saxônicas” porque adorei Uhtred, da mesma forma que fiquei fã de Artur -outro personagem criado pelo escritor inglês Bernard Cornwell. Os dois são fantásticos à sua maneira. Ambos com personalidades completamente distintas – Artur: cristão, educado e um verdadeiro cavalheiro; Uthred: pagão, boca suja e arrogante – mas admiráveis, independentemente dessas particularidades.

Já resenhei a trilogia As Crônicas de Artur (ver aqui, aqui e mais aqui), mas hoje quero falar escrever sobre o último livro das Crônicas Saxônicas que fecha com chave de ouro a saga de Uthred e a sua luta para conquistar a fortaleza de Bebbanburg, tendo como pano de fundo a história da formação da Inglaterra. Cornwell foi muito feliz ao ter tido a ideia de misturar ficção com realidade inserindo personagens fictícios, no caso Uhtred e todo o seu núcleo, dentro de um contexto histórico. Por exemplo, ver Uhtred interagindo com o Rei Alfredo, “O Grande”, personagem histórico muito importante na formação da Inglaterra, é algo viciante.

Uhtred, mesmo criança, sempre foi muito questionador a respeito da religiosidade cristã a qual era cercado. Quando se torna guerreiro do Reino de Wessex, a serviço do rei Alfredo lutando contra os dinamarqueses – que também sonhavam em conquistar os reinos saxões - Uhtred se transforma num guerreiro vitorioso, impiedoso e de muita fama. Os embates ideológicos entre o guerreiro pagão e o seu rei são várias vezes antológicos. Cada um defende o seu ponto de vista com sagacidade e várias tiradas de “sarro”, mas sempre se respeitando mutuamente.

Mas o que chama a atenção na saga, de fato, é a descrição perfeita das batalhas entre saxões, dinamarqueses, noruegueses e escoceses; todos cobiçando os reinos que futuramente dariam origem à Inglaterra. Como já havia feito em As Crônicas de Artur, Cornwell descreve com maestria como era, naquela época, fazer parte de uma parede de escudos. Os desafios de Uhtred, ao longo da saga, onde enfrenta os mais perigosos adversários como os vikings Ubba, Erik, Sigifrid, Cnut – ‘O Espada Longa’, além de outros - são fantásticos e empolgam os leitores. Enfim, uma saga maravilhosa para ser devorada com prazer.

Em O Senhor da Guerra, o autor consegue fechar a saga de 13 livros com perfeição. Cornwell foi muito realista com relação a Uhtred e seus guerreiros, talvez por esse motivo a história tenha desagradado um pouco aquelas pessoas que sonhavam ver um Uhtred violento, desafiando para o combate guerreiros enormes, verdadeiros brucutus com espadas afiadas ou machados enormes. Cara, se isso acontecesse, a narrativa ficaria totalmente “fora da casinha” porque o tempo passa e nós, simples mortais, ainda não descobrimos o segredo da juventude eterna. O mesmo acontece com os personagens criados por Cornwell.

Ficaria muito estranho, por exemplo, observarmos o garoto Athelstan – que teve Uhtred como mentor e protetor ao longo da saga – crescendo e tornando-se um grande rei e ao mesmo tempo vermos Uhtred, ao seu lado, ainda jovem, forte e sem nem um fio de cabelo ou barba brancos. Mais estranhos ainda, seria ver Athelflaed - filha de “Alfredo, O Grande” - que foi uma das amantes de Uhtred, envelhecer e morrer, enquanto o nosso guerreiro continuasse belo e formoso.

Cornwell respeitou a linha do tempo em sua saga e por isso, ela se transformou num dos maiores fenômenos literários das últimas décadas. Sei que escrevendo dessa maneira, os leitores do blog podem até mesmo imaginar um Uhtred velho, inválido e sem graça em O Senhor da Guerra. Não, pelo contrário. O Uhtred desse último livro é muito mais sagaz, inteligente, um estrategista brilhante, além de continuar com a língua afiada e a coragem mais fortes do que nunca. No decorrer da narrativa ocorrem momentos em que o personagem se defronta com dilemas e dúvidas que poucas vezes vimos durante toda a série, uma delas e muito importante está relacionada com o seu primeiro filho que optou por tornar-se padre, o que fez com que o seu pai o desertasse. Prestem atenção nesse trecho: muito emocionante.

Certamente é um dos livros com menos ação dessa saga. Por isso, se você espera ver Uhtred matando inimigos à vontade vai ficar desapontado porquê dessa vez o autor focou em mostrar o que os anos de experiência deram ao guerreiro pagão. Assim, ele se mostra como ser um grande líder e como já escrevi acima: um estrategista militar brilhante. Apesar dos anos, o nome do famoso personagem ainda gera temor e respeito, tanto de seus aliados quanto dos inimigos.

Apesar dos anos terem deixando as juntas de seu corpo um pouco endurecidas, ele ainda faz questão de participar de uma parede de escudos e liderar os seus homens em batalha, mas de uma maneira real, sem aquelas estrepolias dos primeiros livros. Confesso que esses detalhes fizeram com que eu considerasse O Senhor da Guerra uma das melhores narrativas de toda a saga.

Neste 13º volume, após anos lutando para recuperar a fortaleza que era sua por direito, Uhtred retornou à Nortúmbria e a tomou de seu tio traiçoeiro. Agora, com seus guerreiros leais e uma nova companheira, a fortaleza de Bebbanburg parece em segurança. Uhtred, entretanto, está longe de gozar da mesma tranquilidade. Para além das muralhas inexpugnáveis de Bebbanburg, tem início uma disputa por poder.

Ao sul, o rei Æthelstan unificou os reinos de Wessex, da Mércia e da Ânglia Oriental, e agora tem os olhos voltados para a realização irrevogável do sonho de seu avô Alfredo: a criação de um único reino unificado na Britânia. Enquanto isso, ao norte, o rei Constantino e outros líderes escoceses e irlandeses desejam ampliar suas fronteiras, cientes da ameaça que Æthelstan representa. O jovem monarchus totius Britanniae, o monarca de toda a Britânia, ainda não conquistou a Nortúmbria, o último reino ao norte, as terras que fazem fronteira com a Escócia de Constantino.

No olho da tempestade está Uhtred. Preso por um juramento a Æthelstan, mas em busca de paz em sua querida Nortúmbria, ele se vê ameaçado e subornado pelos dois lados do conflito, enquanto precisa encarar uma escolha impossível: manter-se longe da disputa, arriscando sua liberdade e a perda da formidável Bebbanburg, ou se lançar na guerra rumo à mais terrível batalha que os reinos já enfrentaram. Só o destino dirá o resultado.

Como costumo escrever: “Livraço!” Vale a pena ser lido e devorado.

 


20/11/2021

O Único Avião no Céu

Com certeza, novamente, irei na contramão da maioria das opiniões sobre determinado livro. Mas tudo bem, prefiro ser sincero com os meus leitores do que seguir a generalidade, contra a minha vontade, temendo ser criticado em massa. Feito essa ressalva, vou direto ao assunto: não gostei de O Único Avião no Céu de Garrett M. Graff. As poucas partes que conseguiram prender a minha atenção, isso, logo no início do livro, não foram suficientes para afirmar que gostei da obra num todo.

O Único Avião no Céu é um livro de depoimentos de pessoas que conseguiram sobreviver ao ataque de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas no World Trade Center. A obra traz ainda testemunhos de familiares das vítimas que estavam nos aviões e também de parentes e conhecidos dos bombeiros, policiais e paramédicos que morreram no momento em que as duas torres desmoronaram pouco tempo depois do impacto dos aviões.

Na manhã daquela terça-feira de setembro de 2001, quatro aviões comerciais americanos foram sequestrados na costa leste dos Estados Unidos.

Dois deles foram lançados contra as torres gêmeas do World Trade Center (WTC), na ilha de Manhattan, em Nova York, um chocou-se com o Pentágono (sede do Departamento de Defesa dos EUA, em Washington D.C.), e outro caiu numa área desabitada no Estado da Pensilvânia.

Ao todo, 2.977 pessoas foram mortas nos ataques, além dos 19 sequestradores dos aviões.

O 11 de Setembro é considerado o ataque com o maior número de mortos da história. Além disso, foi uma tragédia que mudou, em vários aspectos, os rumos do mundo.

Não resta dúvida que lançar um livro com depoimentos de pessoas que viveram esse momento, que viram tudo acontecer há poucos metros de distância e mesmo assim, conseguiram sobreviver a catástrofe foi uma grande sacada do autor.

Cara, seria o tipo de livro com potencial para despertar o interesse de qualquer leitor, mas...

Olha, o início de O Único Avião no Céu até que empolga o leitor, tanto é que cheguei a postar algumas passagens do livro no Instagran, mas o problema é que a narrativa de Graff vai cansando. Imagine um livro com aproximadamente 550 páginas baseado em mais de 500 relatos orais colhidos pelo autor.

Graff optou por não criar um enredo em cima desses relatos, mas publicou-os, simplesmente, na forma de depoimentos. Portanto são mais de 500 páginas seguindo o formato: “nome do depoente” – “função que o depoente desempenhava em 11 de setembro” – “depoimento”. Antes de cada capítulo, Graff faz uma pequena introdução – não mais de meia página – contextualizando as informações das testemunhas. E depois... tome relatos e mais relatos. Muitas vezes tive a impressão que estava lendo um calhamaço de depoimentos e não uma história com todos os elementos narrativos necessários para despertar o interesse do leitor.

Somando-se a isso, grande parte dos relatos não são tão interessantes e poderiam ter sido dispensados. Por exemplo, os capítulos que abordam o ataque ao Pentágono e a evacuação do Capitólio são por demais cansativos. Outro capítulo também trash e que exige muita paciência do leitor são aqueles relacionados ao Air Force One, avião presidencial que transportava o, então, presidente americano George W. Bush. Muitos testemunhos que rolaram no avião presidencial são vazios e poderiam ter sido cortados.

Como já escrevi no começo dessa postagem, os capítulos iniciais da obra relacionados ao ataque às torres gêmeas e ao trabalho de resgate das vítimas até empolgam, mas infelizmente depois, nos próximos capítulos, essa empolgação vai se esvaindo.

Confesso que os capítulos onde as pessoas pulam dos prédios atacados por dois aviões é um dos aspectos mais sombrios e sensíveis do livro. O mesmo vale para os capítulos com os relatos de bombeiros e demais socorristas que trabalharam no resgate das vítimas. Outra parte sensível da obra e que me emocionou muito, foram os capítulos onde os familiares das vítimas que estavam nos aviões revelam a última conversa que tiveram com seus entes queridos que estavam nas aeronaves antes de se chocarem contra as torres gêmeas, o Pentágono ou então caír – no caso, o avião onde alguns passageiros decidiram lutar contra os terroristas fazendo com que a aeronave se chocasse contra o solo.

 É uma pena que sejam poucos capítulos porque depois, com o virar das páginas, os relatos vão se tornando desinteressantes e cansativos. Acredito que se O Único Avião no Céu tivesse menos páginas, o resultado seria muito melhor, mas uma média de 550 páginas... convenhamos é muito exagero para o estilo narrativo escolhido pelo autor.

Inté!


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