16/06/2011

O Concorrente

Se eu fosse um sargento e o tal Steve E. Souza, um recruta, faria o desgraçado fazer mil reflexões com apenas uma mão sob sol escaldante. Ta bem, ta bem, me desculpe o desabafo, mas acho que o sujeito merece esse castigo, afinal de contas ele destruiu a melhor das cinco histórias escritas por de Richard Bachman – leia-se Stephen King - quando fez a adaptação para o cinema.
Pois é, coube ao notório desconhecido Steve E. Souza adaptar o roteiro do livro “O Concorrente” para as telas. E deu no que deu, um verdadeiro desastre chamado “O Sobrevivente”, tendo no papel principal o brucutu Arnaold Schwarzenegger, antes de ter decidido se aventurar na carreira política.
E o que dói no meu coração é saber que a história de Bachman tinha tudo para se transformar num filme de ficção cientifica primoroso.
“O Concorrente” é fantástico e não é a toa que o próprio Stephen King o considera o melhor dos cinco livros escritos pelo seu alter ego Richard Bachman.
Utilizando-se de uma narrativa extremamente vigorosa e realista, Bachman, transporta o leitor para um mundo futurista, em 2025, dominado pelos meios de comunicação onde a televisão é a grande vedete. Ela invade os lares americanos saciando o desejo de sangue dos telespectadores através de uma rede de TV especialista em promover jogos onde o vencedor ganha como prêmio a vida e o perdedor, a morte. A impressão que temos, ao ler o livro, é que estamos retrocedendo à Roma dos gladiadores, mas à uma Roma do futuro.
A Co-Op City, empresa que domina os canais de televisão em 2025 leva ao ar vários reality shows, cada um mais bizarro do que o outro, entre os quais, um que se chama “Esteira para a Grana”, onde os concorrentes devem correr sob uma esteira – semelhante aquelas encontradas em  academias – enquanto respondem à perguntas de um apresentador. Detalhe obrigatório: os participantes devem ter obrigatoriamente graves problemas cardíacos ou respiratórios. É declarado vencedor aquele que não morrer durante a prova. Outros jogos extravagantes são “Cave a sua sepultura”, “Quanto calor você agüenta”, “Nade nos crocodilos”, “Corra para as suas armas” e o “Foragido”.
Ainda neste mundo bizarro criado por Bachman, os entorpecentes são vendidos em máquinas automáticas e o ar puro é privilégio de poucos já que é comercializado por valores altíssimos.
É neste contexto estranho repleto de bizarrice dominado por uma empresa de  TV mais bizarra ainda, onde a sua arena mortal é o combustível para aumentar a audiência, que o personagem Bem Richards luta para salvar a vida de sua filha.
Richards é um sujeito desempregado e por isso, não tem condições de pagar o tratamento médico que pode salvar a vida de sua filha que tem um grave problema de saúde. Para não ver a sua mulher se prostituindo na esperança de ganhar algum dinheiro para salvar a criança, ele resolve se inscrever no reality show mais perigoso e letal da Co-Op City chamado “O Foragido”.
Após entrar no jogo, Richards passa a ser perseguido por um grupo de policiais corruptos – altamente treinados e equipados – que trabalham para a companhia de TV. Esses policiais conhecidos por “caçadores” são comandados por Evan McCone, descendente direto de J. Edgard Hoover, dos quais, durante os seis anos de programa, nenhum competidor conseguiu escapar com vida.
De acordo com as regras do jogo, cada hora que Richards conseguir permanecer vivo, ele ganha 100 dólares e se não morrer no final de 30 dias, leva 1 bilhão de dólares.
Quando a caçada tem início, Richards se transforma num animal acuado, tendo de usar todas as suas habilidades para fugir dos caçadores que contam com o auxílio da população que também quer a morte do fugitivo, já que a Co-Op City transformou a imagem de Richards num perigoso assassino.
Em resumo, esse é o enredo de “O Concorrente”. Um livro dinâmico e marcante. Uma estréia com chave de ouro de Stephen King na ficção científica, muito o diferente do gênero do qual está acostumado, ou seja, o terror.
Se o livro vale a pena ser lido e relido, o filme do roteirista “maledeto” e do diretor Paul Michael Glaser merece ser esquecido, aliás, merece nem ser visto.
Para início de assunto, transformaram a adaptação de “O Concorrente” para as telas num medíocre filme de ação, mais parecido com um Rambo meia boca, deixando a ficção científica num terceiro ou quarto plano. Todo aquele clima bizarro e doentio explorado por King/Bachmnan no livro foi esquecido.
O Ben Richards criado por King é um personagem complexo, movido pelo ódio que brota de sua alma por não ter dinheiro suficiente para salvar a filha. Esse ódio cresce ainda mais  quando ele é obrigado a se humilhar na frente de milhares de pessoas que passam a caçá-lo como um animal, querendo o seu sangue em troca da vida sua filha. Essa personalidade conflituosa do personagem das páginas de King/Bachman não existe no brutamonte interpretado por Schwarzenegger que só pensa em fugir, lutar e bater.
Quanto aos caçadores, no livro, são homens normais, corruptos, mas normais. Usam armas convencionais e se valem apenas de seu treinamento, perspicácia e inteligência para localizar e conter o foragido. Já no filme de Paul Michael Glaser... Ai Ui-ui! Os caras são verdadeiras aberrações, parecendo ter saído de um manicômio ou então de um circo de horrores. Tem um japonês balofo e mudo caracterizado como jogador de hóquei que ao invés de usar o taco para movimentar o disco, o utiliza como arma para matar os participantes do jogo.  Existe um homem da raça negra, de meia idade, que sai voando graças a um equipamento esquisito amarrado em suas costas e que utiliza um lança-chamas para transformar os foragidos em churrasquinhos. Sem contar, um branquicelo obeso que usa uma roupa energizada, cheia de luzes e neon, dirigindo um carro esquisito. O sujeito consegue disparar uns raios pelas mãos. Pois é, pode acreditar, esses são os caçadores do filme “O Sobrevivente”.
Cruzes! Um verdadeiro festival de esquisitices e sandices. Tenho a impressão que o roteirista estava tendo alguns surtos psicodélicos quando criou esses “caçadores”.
Nem com muita reza dá para encarar o filme. Definitivamente horroroso. Quanto ao livro “O Concorrente”, uma verdadeira obra prima de Bachman. Uma obra para ler, reler e guardar.
Ah! Em tempo! A edição lançada pela Suma traz ainda um capítulo à parte, onde Stephen King explica os motivos que o levou a adotar o pseudônimo de Richard Bachman para escrever alguns livros.
Inté!

14/06/2011

A Princesinha

Sempre fui adepto da teoria: “Leia o que quiser, como quiser e da maneira que quiser”. Não devemos ter vergonha do que lemos temendo ser taxados pelos outros de simplórios ou então pouco inteligentes. O que interessa, meu amigo, é que a viagem que você está prestes a iniciar, juntamente, com o seu velho companheiro o “livro” lhe faça bem, que lhe deixe com uma satisfação plena. O resto e os outros que se danem.
Pena que nem todos tem coragem suficiente para assumir essa responsabilidade. Principalmente quando se trata da leitura de alguns romances. Conheço várias pessoas que tem vergonha de ler em público certos livros considerados – erroneamente – muito ingênuos para o seu intelecto. Mas, no íntimo, essas mesmas pessoas amam esses livros e seus autores. Então o que elas fazem? Simples. Optam por lê-los escondidas dos outros. Em público, nem pensar!
Me desculpem fazer esse preâmbulo que mais se parece um desabafo antes de entrar no assunto do post que é o comentário de “A Princesinha”. É que há cerca de duas semanas, após aguardar a chegada do meu ônibus no terminal rodoviário de uma certa cidade, vi um o homem de terno, gravata, sapato último modelo e pasta tipo 007 lendo, muito desconfiado, um livrinho (usei o diminutivo não pelo conteúdo da obra, mas pelo seu tamanho). O sujeito estava por demais incomodado e percebi que ele tentava cobrir o título da obra com parte da mãos. Cheguei a conclusão que o tal homem engravatado, que se parecia com um advogado ou executivo, sei lá, estava se deliciando com a leitura, mas morrendo de vergonha do livro “A Princesinha”, da Frances Hodgson Burnett.
Juro que fiquei com uma vontade enorme de dizer ao homem envergonhado que eu havia acabado de reler a obra de Frances Burnett na semana passada e tinha adorado. Quer dizer, adorado novamente, porque já havia lido o livro na minha infância/adolescência.
Há livros infanto-juvenis com essa mística, ou seja, com o poder de encantar não só os pequenos leitores, mas também os grandes. E “A Princesinha” se inclui, tranquilamente, nessa categoria.
E não venham os leitores machistas dizerem que se trata de um livro para mulheres... nada disso. É uma leitura para o crescimento ou mudança do “ser humano”, extrapolando o conceito “sexo”. Fico imaginando quantas crianças ou adolescentes aprenderam a serem fortes ou então mudaram a sua visão de vida se espelhando na personagem Sara Crewe, brilhantemente criada por Frances H. Burnett.
Em “A Princesinha”, a autora fala de uma menina muito rica, chamada Sara, que vive na Índia com todas as regalias e acostumada a ver  os outros sempre prontos a atender os seus desejos, tratando-a como uma verdadeira princesa. Ao completar 10 anos de idade, o seu pai, capitão Crewe, decide matriculá-la num colégio interno, em Londres, para que possa iniciar os seus estudos. Ao chegar lá, o pai de Sara exige da direção do colégio que a filha tenha do bom e do melhor, até o dia em que ele retorne da India - onde tem negócios importantes - para buscá-la. Mas num triste dia, chega a notícia de que o capitão morreu e acabou perdendo todo o seu dinheiro. De repente, Sara se transforma de menina rica em pobre e passa a ser menosprezada pela maioria de suas colegas, além de “comer o pão que o diabo amassou” nas mãos da perversa diretora do colégio que só se interessava por ela tinha dinheiro. Como não tem nenhum familiar para ficar, a princesinha – como era chamada por seu pai – passa a morar de favor no colégio e é obrigada a trabalhar como empregada sendo espezinhada pelas alunas e também pela diretora, menos por Beck, a sofrida ajudante de cozinha do colégio. O sofrimento de ambas, faz surgir uma forte amizade entre elas. Mas é claro, que o final do romance reserva uma inesperada reviravolta que deixará os leitores boquiabertos. Enfim, esse é um pequeno resumo da história.
O livro de Frances H. Burnett me ensinou várias lições de vida na minha infância/adolescência. Não tenho vergonha em afirmar que ele teve uma importância fundamental para solidificar alguns dos meus conceitos de vida e também mudar outros menos nobres.
Algo que me marcou profundamente foi o “lance” da humildade de Sara Crewe, que apesar de ter o mundo aos seus pés, nunca deu importância maior para o material. Para ela, num patamar muito acima da riqueza estavam os seus amigos e a alegria de fazer algo que lhe dava prazer. No seu caso, ser uma contadora de histórias... de criar enredos, personagens e situações interessantes. Ver as outras pessoas compenetradas, muitas vezes sem piscar os olhos, presas em algo que ela criava, era a sua maior alegria. Além disso, as histórias contadas por Sara funcionavam como uma teia de aranha, pois todos queriam ser suas amigas para poderem desfrutar desses momentos mágicos. E cada amiga que ela fazia era uma alegria a mais em sua vida.
Portanto, quando Sara ficou na miséria, ela não sofreu, porque mais importante do que os seus dotes financeiros era o seu dom. Esse desapego com o poderl ajudou ainda mais no seu amadurecimento. Para ela, pior do que perder todo o seu dinheiro foi perder o seu pai.  
A força dessa menininha feita de arueira foi algo que jamais me esqueço e me ajudou demais naquela época da minha vida.
Outro ponto importante na história criada por Burnett é a relação de respeito existente entre Sara e o seu pai. O capitão Crewe dá toda a liberdade para que a filha “curta” a sua infância, mas também passa à ela muitas responsabilidades que irão ser úteis quando crescer ou então enfrentar situações mais difíceis em sua vida.
Quanto ao relacionamento de Sara e Beck, a ajudante de cozinha, também nos ensina o valor da verdadeira amizade que não leva em conta raça, coondição social ou credo. Enfim, antes de ser um livro meramente infantil, “A Princesinha” é uma obra com o poder de mudar conceitos em nossa infância/adolescência.
O livro de Frances H. Burnett fez tanto sucesso que foi adaptado várias vezes para o cinema, sendo as mais conhecidas filmadas em 1939 e 1995. O primeiro se chamou “A Pequena Princesa” e teve no papel principal a atriz prodígio daquela época, Shirley Temple. Já o segundo foi lançado no Brasil em 1995 com o título de “A Princesinha” e recebeu duas indicações para os Oscar de 1995: Direção de Arte e Melhor Fotografia.

12/06/2011

Livros desconhecidos que se transformaram em filmes famosos

Pretendia escrever esse artigo já há algum tempo, mas cada vez que pensava em iniciar o texto, pronto! Ficava sabendo de um novo livro desconhecido da grande massa de leitores, que mesmo assim, havia originado um filme famoso. E então, fui pesquisando, pesquisando, até a tarde deste domingo, quando disse: chega! Já tenho material suficiente para  fazer a postagem.
Você não imagina como é grande a quantidade de livros ignorados pelos leitores, que acabaram gerando verdadeiros blockbusters para a indústria cinematográfica. 
Mas atenção; não estou querendo afirmar que essas obras literárias são “lixos meramente descartáveis”. Nada disso. São ótimas, algumas delas verdadeiras obras primas, mas que por algum motivo acabaram caindo no esquecimento do leitor brasileiro. E quais seriam esses motivos? Podem ser tantos. Por exemplo, aquele livro que só foi lançado no mercado europeu e por isso não teve nenhuma edição traduzida para o português; a obra de uma editora pequena que acabou tendo uma tiragem reduzida; um livro que apesar de ser “o fino da bossa” foi massacrado, injustamente, por alguns críticos irresponsáveis que estavam num dia de fúria; ou então simplesmente, um livro que apesar de ser “top-line” não emplacou, ficando emperrado nas prateleiras. Culpa de quem ou de que? Dos editores que não fizeram um bom trabalho de marketing; do título que não atraiu o leitor, da má divulgação, do crítico que não foi com a cara do escritor, sei lá, motivos para uma obra de qualidade não emplacar são muitos.
Por isso, hoje, resolvi homenagear esses livros injustiçados. Os chamados “primos pobres” que mesmo desconhecidos ou esnobados pelos leitores da nova geração originaram verdadeiros “primos ricos”  nos cinemas. Antes que me esqueça, quero agradecer os roteiristas que acreditaram nos humildes, mas capazes, “primos pobres”. Vamos a nossa relação!
01 – Who Goes There? (1938)
Cen do filme "O Enigma do Outro Mundo" (1982)

Qual o título do livro em português? Esqueça, porque ele não foi lançado no Brasil; somente no mercado europeu. Acredito que este tenha sido o motivo principal da obra de John W. Campbell Jr. passar completamente despercebida pelos leitores tupiniquins. Se alguma editora brasileira, na década de 30, tivesse investido na tradução do livro de Campbell, ele se tornaria um verdadeiro Best-seller em terra verde e amarela, mas o Sr. Destino não quis assim. Dessa maneira, paciência, temos de nos contentar apenas com os dois filmes que “Who Goes There?” originou: “O Monstro do Ártico” (1951) e “O Enigma do Outro Mundo” (1982).
Campbell Jr. escreve sobre um monstro alienígena, cuja nave, cai próxima a uma base de pesquisadores americanos no Pólo Norte. Ao ser resgatado e levado para o interior da base, a criatura acaba provocando uma verdadeira matança. A refilmagem de 1982 conseguiu uma proeza sem precedentes: superar o original que foi exibido nos cinemas em 1951. Os dois filmes se tornaram clássicos da ficção científica e levaram multidões ao escurinho do cinema. Enquanto o livro, simplesmente nem existiu... no Brasil.
02 - Adeus ao Mestre (1940)
Livro de contos compilados por Isaac Asimov,
entre os quais "Adeus ao Mestre"

Este conto de Harry Bates foi publicado, inicialmente, em uma revista americana em 1940, não sendo notado pela maioria dos leitores, excetuando os produtores do estúdio da Twentieth Century-Fox que amaram o texto. Após uma rápida negociação, eles conseguiram adquirir os direitos de filmagem da obra, mesmo assim, o filme “O Dia em Que a Terra Parou”, baseado no conto de Bates só seria lançado dez anos depois, em 1951. Dirigido por Robert Wise, em pouco tempo, a produção cinematográfica se transformou num grande sucesso de bilheteria. A história do alienígena Klaatu que vem à terra em uma missão de paz, mas é recebido à bala, originando um grave conflito pode ser considerada referencia no gênero ficção científica, mas no cinema e não nas páginas. O conto de Bates, mesmo sendo primoroso e com diferenças marcantes da adaptação cinematográfica não emplacou, mesmo assim, vale a pena ser lido. A boa notícia é que você pode encontrar a história de Bates facilmente na maioria dos sebos. O conto faz parte de uma antologia compilada por Isaac Asimov no livro “Máquinas que Pensam”, lançada em 1983 pela editora LPM. O livro de 430 páginas traz ainda outras histórias de verdadeiros gênios da ficção científica, entre os quais: Philip K. Dick, Arthur C. Clarke, Gordon Dickson e o próprio Asimov. O conto de Harry Bates está na página 75. Ah! Em tempo! “O Dia em Que a Terra Parou teve ainda um remake, em 2008, com Keanu Reeves no papel de Klaatu. A refilmagem do clássico de 1951 foi bem fraquinha, já que o diretor Scott Derrickson privilegiou muito mais os efeitos especiais e o poder de fogo do robô gnut – guarda costas de Klaatu – do que a história em si.
03 – Desejo de Matar (1974)
“Filme lembrado, livro esquecido”. Está máxima serve perfeitamente para “Desejo de Matar” que se tornou uma produção cinematográfica antológica, dando início á uma franquia de muito sucesso, além de catapultar a carreira de Charles Bronson. Enquanto isso, o livro de Brian Garfield, no qual foi baseado o filme, caiu no esquecimento. É triste constatar que após 37 anos de seu lançamento, uma parcela pequena de pessoas sabe até mesmo que o livro existe.
Este fenômeno não tem uma explicação lógica porque considero o livro de Garfield muito superior ao filme, bem mais detalhista. Apesar de não ser nenhuma obra de arte, “Desejo de Matar” consegue prender a atenção do leitor e é melhor do que muitas obras horríveis que hoje são decantadas em prosa e verso, tanto pela crítica especializada quanto pelos leitores. Taí “Fallen”, “Susurro”, “Wake” e outras bombas que não me deixam mentir.
Mesmo na época de seu lançamento, em 1974, o livro de Garfield não foi um “estouro” de vendas, à exemplo de uma outra obra sua chamada “Death Sentence” que deu origem a um outro filme chamado “Sentença de Morte”. Apesar da falta de atenção dos críticos e dos leitores, a história acabou despertando o interesse de roteiristas da Paramount e também do mega-produtor da época, Dino de Laurentis, que compraram os direitos da obra com a intenção de adaptá-la para as telonas. Nascia assim o fenômeno “Desejo de Matar” com Charles Bronson. Enquanto isso, o livro, apesar das suas qualidades, ficaria no esquecimento.
04 – Duro de Matar (1979)
Capa do livro de Thorp antes do
lançamento do filme

Comprei o livro por causa do filme. O motivo? Como achei “Duro de Matar”, com Bruce Willis, um filme frenético, uma verdadeira montanha russa, tinha curiosidade em saber se os roteiristas haviam feito uma adaptação fiel das páginas para o cinema, ou se quase nada do livro de Roderick Thorp havia sido aproveitado. Li o livro há uns dois anos e antes de escrever esse artigo optei também por fazer uma “releitura dinâmica” da obra, e posso garantir que a adaptação feita para as telonas é muito fiel ao livro. Pouca coisa mudou. Entre elas, o nome do personagem principal que no livro se chama Joe Leland e o fato dele ser bem mais velho e sisudo do que o detetive John McClane interpretado por Buce Willis no filme. O clima do livro também é muito pesado, com Leland e os terroristas assumindo um duelo psicológico perturbador nos intervalos dos tiroteios e explosões. Já no filme, McClane é bem mais jovem e humorado. Outra mudança é com relação a mulher de McClane. No livro, ela não é esposa, mas sim a sua filha. 
Capa do livro de Thorp depois do
lançamento do filme

Excetuando essas diferenças, o filme é muito fiel ao livro de Thorp, inclusive, o leitor tem a impressão de que várias cenas de ação contidas nas páginas da história foram adaptadas integralmente para a telona do cinema.
A curiosidade é que o livro de Thorp não se chamava “Duro de Matar”, mas sim “Nada é Para Sempre” (Nothing Last Forever) e na época de seu lançamento passou completamente despercebido nas livrarias. Quer dizer... até surgirem os produtores Lawrence Gordon e Joel Silver e se interessarem pela história. Após o lançamento de “Duro de Matar” nos cinemas e o seu estrondoso sucesso, as novas de edições de “Nada é Para Sempre” passaram a ser “batizadas” com o mesmo nome do filme. Mesmo assim, o livro não vingou, entrando para o rol das obras que ficaram desconhecidas através dos tempos.
05 - Forrest Gump (1986)
 
capa da edição lançada no Brasil

Você já leu ou assistiu Forrest Gump? Creio que a maioria das pessoas que ler esse post responderá que já assistiu ao filme. E vou mais além, alguns até desconhecerão que um dia existiu um livro com esse nome. Apesar do livro de Winston Groom ter sido escrito em 1986, ele só foi lançado no Brasil oito anos depois, praticamente, junto com o filme. Tudo leva a crer que a jogada de marketing tinha por objetivo fazer com que um alavancasse o sucesso do outro, tipo uma relação simbiótica, onde livro e filme dependessem um do outro para crescer. Prova disso foi a capa da edição brasileira do livro que copiava a imagem do cartaz promocional do filme com o ator Tom Hanks sentado num banco com uma malinha de viagem, ao lado, colocada no chão.
 
Capa da edição original, lançada nos EUA, oito anos
antes do filme

 E para não fugir da rotina, novamente entrou em cena a “maldição dos livros desconhecidos”. Enquanto o filme atingiu as estrelas, o livro no qual foi baseado, não decolou e ficou no chão.
À exemplo de outras obras abordadas nesse post, o livro de Winston Groom é excelente; tão bom quanto o filme, mas despertou o interesse de poucos leitores. Em resumo “Forrest Gump” é a história de um homem de QI muito baixo que vive aventuras incríveis em sua vida, algumas delas hilárias e outras emocionantes. Forrest Gump é o nome do personagem e as aventuras vividas por ele representam um retrato da história norte americana, como a Guerra do Vietnã, Caso Watergate e outros. Enfim, livro e filme excelentes! A trilha sonora, então, Jesus!! Que primor!
06 – A História sem Fim (1979)
É quase certo que de cada dez “adolescentes de ontem”, nove irão dizer que A História sem Fim foi o ‘filme’ e não o ‘livro’ que marcou a sua adolescência, mesmo porque a maioria não chegou a ler a obra de Michael Ende, e muito menos sabe que ela existe. Para essa geração o que vale é o filme que estreou nos cinemas em 1984, cinco anos após o lançamento do livro.
Infelizmente ainda não li a obra de Michael Ende, mas pretendo adquiri-la o mais breve possível. Também não vou ser hipócrita escrevendo neste espaço que eu já sabia que existia um livro antes do filme. Nada disso; eu não sabia.; por isso me incluo nas estatísticas daqueles que só tinham conhecimento da existência do filme. Sendo assim, tive de procurar um velho amigo que já leu o livro para ouvir a sua opinião. “Esqueça o filme e leia o livro!” Essa foi a resposta direta e reta que ele me deu. Então pensei com os meus botões: “Para esquecer o filme História sem Fim é porque o livro é muito bom; muito bom não... deve ser fantástico”. Daí, vou adquiri-lo, provavelmente, na próxima semana, incluindo-o na minha lista prioritária de leituras.
07 – Ao Mestre com Carinho (1967)
Capa do DVD do filme com Sidney Poitier

Ao Mestre com Carinho é um caso semelhante ao livro “Who Goes There?” no qual foi baseado os filmes “O Monstro do Ártico” e “O Enigma do Outro Mundo”. O livro de E.R. Braithwaite, simplesmente, não foi lançado no Brasil. Aqueles que tinham o desejo de conhecer a história real de um professor que consegue transformar uma classe de “moleques rebeldes” em adultos com um alto senso de responsabilidade, vivido nos cinemas por Sidney Poitier eram obrigados a comprar a edição americana da obra. Isto significava que os leitores que não tinham o domínio da língua inglesa dançavam.
E. R. Braithwaite – é o professor que inspirou o papel de Mark Thackeray, interpretado por Poitier, na produção cinematográfica “Ao Mestre com Carinho” (To Sir With Love), de 1967. Portanto trata-se de um livro autobiográfico que “maioria da maioria” dos brasileiros nunca ouviu falar. Mas quanto ao filme ou a música do filme chamada To Sir With Love, interpretada pela Lulu, quase todos cinqüentões ou sessentões viram ou ouviram. Para aqueles que não se recordam direito do filme, “Ao Mestre com Carinho” conta a história de Mark Thackeray (Sidney Poitier), um engenheiro desempregado que resolve dar aulas em Londres, no bairro operário de East End. A classe indisciplinada, liderada por três alunos rebeldes (um rapaz e duas moças)  estão determinados a destruir Thackeray como fizeram com seu predecessor, ao quebrar-lhe o espírito. Mas Thackeray acostumado à hostilidade enfrenta o desafio tratando os alunos como jovens adultos que breve estarão se sustentando por conta própria. Quando recebe um convite para voltar a engenharia, o jovem professor deve decidir se pretende continuar ou não com a sua classe de alunos.
08 – Shrek (1990)
Em 2001, um ogro verde e feio que vivia num pântano, em meio à floresta, em uma terra chamada Duloc acabaria conquistando crianças e adultos. O filme produzido pela DreamWorks, estúdio do gênio Steven Spielberg, arrecadaria 100 milhões de dólares nos cinemas, transformando-se numa verdadeira coqueluche mundial. A produção cinematográfica teria ainda mais duas sequências de sucesso. Mas o que pouca gente sabe é que o ogro verde não é produto de um roteiro original, mas sim de um livro. Pois é, o Shrek nasceu em 1990 e não em 2001. Na realidade, antes de aparecer nas telas de um cinema, ele já dava as caras nas páginas de um livro. O monstrinho que conquistou todo o mundo é uma criação do escritor William Steig, mas muitos adultos e crianças aqui da nossa terrinha não sabiam da existência dessa obra e pensavam que o tal do Shrek era uma criação dos estúdios de Spielberg.
09 – Lula O Filho do Brasil (2009)
Livro que contém a história
romanceada de Lula
No ano passado fui até uma livraria, distante algumas quadras de casa, decidido a comprar o livro do Lula escrito pela Denise Paraná, mas ao chegar no local me enbasbaquei todo. Dei dê cara com dois livros sobre o nosso ex-presidente, com títulos praticamente idênticos e escritos pela mesma Denise Paraná!!. Um deles se chamava “A História de Lula O Filho do Brasil” , enquanto o outro tinha o título de “Lula O Filho do Brasil”. O primeiro tinha a capa semelhante ao cartaz oficial do filme com a Glória Pires ao lado de Felipe Falanga e Ricardo Dias. Já o outro trazia apenas uma foto do Lula. Na dúvida, optei pelo livro que tinha o cartaz do filme. Resultado: Dancei bonito! 
Livro que serviu de inspiração para o filme

Como já disse, os dois livros foram escritos pela mesma autora,  mas a obra que inspirou o diretor de cinema Fábio Barreto é aquela que não traz o cartaz do filme em sua capa. Barreto se baseou no livro de mais de 500 páginas que traz apenas a foto de um Lula bem sorridente.
Após uma pesquisa na Net fiquei sabendo que muitas pessoas cometeram o mesmo erro, ou seja, compraram o livro errado. Tudo por culpa da tal capa.
Inclusive, no site oficial do filme, a obra com a Glória Pires na capa é a que aparece, fazendo com que o leitor compre gato por lebre. Essa confusão fez com que o livro que Fábio Barreto usou no roteiro de seu filme ficasse no ostracismo.
10 – "Tribal Rites of the New Saturday Night" (1975)
Juro que por essa eu não esperava! O filme “Os Embalos de Sábado à Noite” que causou um verdadeiro frenesi em 1977 e revolucionou toda uma geração, inclusive a minha, foi baseado num artigo publicado na revista New York Magazine! Cara! Eu quero ler esse artigo para compará-lo com o filme! Mas é claro que o artigo escrito por Nick Conh se tornou uma verdadeira raridade e que daqui há pouco tempo só será encontrado em um museu norte americano. Por isso, é melhor conter as minhas esperanças...
Artigo de Nick Conh publicado no New York
Magazine e que inspirou "Os Embalos..." 

O artigo de Conh se referia a um rapaz complicado, racista, boca suja e que só pensava em sexo, sexo e mais sexo. Para colocar para fora toda essa energia, nos finais de semana ele procurava uma discoteca em sua cidade para dançar. Quando pisava na pista, ele se transformava num semideus e era adorado por todos que freqüentavam o local e que só viam no sujeito o “dançarino perfeito”, se esquecendo completamente de toda a sua rebeldia.
Reza a lenda que ao pegar – por acaso - um exemplar da revista New York Magazine e ler o artigo de Cohn, o agente do ator John Travolta viu no rapaz rebelde e sexista do artigo, o personagem ideal para o seu agenciado. Ao mostrar o jornal para Travolta, ele também teria adorado o artigo. Começava assim, a nascer o filme “Os Embalos de Sábado à Noite”.
Agora deixe-me fazer uma perguntinha básica prá você que lê esse post. Por acaso, o querido amigo “leitor-internauta e blogueiro” já teve oportunidade de ler o artigo de Nick Conh no qual foi baseado o filme “Os Embalos de Sábado á Noite”?
Tai galera; algumas obras desconhecidas que deram a sua contribuição para gerar filmes inesquecíveis.
Espero que tenham gostado.

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