05/06/2011
Excalibur (As Crônicas de Artur)
(Contém Spoilers) Acabei de reler “Excalibur”, o livro que fecha a trilogia “As Crônicas de Artur” e posso garantir que Bernard Cornwell reservou as batalhas e confrontos mais emocionantes para esse volume. Os combates de Camlann e do Monte Badon podem ser considerados épicos. Fico imaginando essas duas batalhas sendo transpostas para o cinema e então chego a conclusão que a visão da maioria dos produtores de Hollywood é por demais curta porque até agora nenhum deles teve ímpeto suficiente para bancar uma adaptação dos três livros de Cornwell para as telonas.
O encontro ocorrido no Monte Badon, entre os britânicos comandados por Artur e os saxões tendo a frente os chefes Aele e Cerdic, é simplesmente fantástico. Considero Cornwell o melhor escritor de enredos sobre batalhas medievais. Prova disso são as sagas “Guerras Saxônicas”, “A Busca do Graal” e é claro “As Crônicas de Artur”. A impressão que temos é que estamos no meio das batalhas, participando delas. São paredes de escudos se entrechocando produzindo estrondos mais altos do que trovões no meio de tempestades, sacrifícios de bravos guerreiros tombando na luta para salvar um companheiro, exércitos de cavaleiros tentando romper uma parede de escudos, espadas dilacerando a carne, enfim, uma verdadeira epopéia. E como tempero desse contexto: traições, coragem, covardia, amizade, em síntese, uma autêntica miscelânea de sentimentos, transformando os personagens das sagas de Cornwell em verdadeiras obras primas da literatura.
Pois é, em “Excalibur”, você encontra tudo isso. A narrativa da batalha do Monte Badon é como uma teia de aranha que prende o leitor, fazendo com que ele não largue o livro um minuto sequer. Ao contrário de muitos escritores do gênero, Cornwell prefere dotar os seus personagens femininos de uma personalidade forte e marcante, fugindo daquele padrão convencional de que a mulher de um guerreiro medieval deve ser submissa ao marido. As princesas Guinevere e Ceinwyn fogem dessas características e tem uma importância decisiva na vitória conquistada por Artur contra os saxões no Monte Badon. A primeira, vestindo armadura, pegando o seu arco e flecha e indo para o campo de batalha, enquanto a segunda exerce o papel de conselheira de seu marido, dando toda orientação e força necessárias para que Derfel não perca as esperanças, já que os homens do exército de Artur são em número bem inferior.
É graças a Guinevere que os britânicos conseguem uma vitória inicial que abala os ânimos dos saxões e justamente no momento em que as paredes de escudos dos homens de Artur e Derfel estavam perto de ser rompida.
O confronto de Camlann que fecha a saga arturiana de Cornwell também não fica para trás e pode ser comparado em magnitude ao Monte Badon. É neste momento, ou seja, nas últimas páginas de “Excalibur” que ocorre a tão esperada luta entre Artur e Mordred. E na minha opinião, Cornwell conseguiu se superar, porque em menos de duas páginas ele conseguiu imprimir toda dramaticidade e suspense e ação a este confronto, não decepcionando o leitor.
A luta entre os dois personagens, mostra um Artur já idoso e sem a mesma agilidade de outrora, mas que é compensada pela experiência adquirida em muitas batalhas. Já Mordred, apesar do seu pé torto, está no auge de sua forma física, ágil e traiçoeiro, mas com dois pecados mortais para um guerreiro: a arrogância e o excesso de confiança. Posso dizer que apesar de rápida, é uma luta memorável.
Outros três confrontos que valem a pena serem citados em “Excalibur” envolvem os personagens Derfel, Liofa, Lancelot, Cuneglas, Nimue e Merlin. O combate entre Derfel e Liofa, o campeão de Cerdic, um dos reis saxões, é de tirar o fôlego. Quanto a Lancelot, personagem que o leitor da saga arturiana sempre viu como um covarde, em “Exacalibur”, temos uma surpresa, já que ele demonstra muita perícia no confronto que acontece com Derfel.
Desde “O Rei do Inverno” e passando por “O Inimigo de Deus”, eu vivia na expectativa de ver Lancelot numa batalha já que na “Hora H”, ele sempre encontrava um pretexto para fugir. E confesso que valeu a pena esperar. A luta entre Derfel e Lancelot, apesar de também ser muito rápida, consegue prender o leitor.
O rei de Powys, Cuneglas, cuja bondade e justiça sempre predominou os seus atos, também nos dá um momento emocionante na história ao enfrentar o perigoso assassino Liofa, perito no uso da espada. Todos tentam impedir Cuneglas de aceitar o desafio do campeão de Cerdic, mas ele não escuta e decide enfrentar o seu algoz.
Outro momento memorável é o enfrentamento de Nimue – completamente enlouquecida e querendo a qualquer custo realizar a cerimônia pagã para convocar os deuses da Britânia – e o famoso druida Merlin.
Mas “Excalibur” não se resume apenas em batalhas, confrontos e sangue, os momentos dramáticos da história também são notáveis, como por exemplo o seqüestro do filho de Artur, arquitetado por Nimue, com o objetivo de assassiná-lo para que o seu sangue pudesse ser usado no ritual de convocação dos deuses. O encontro entre Derfel e seu pai Aele, tanto no acampamento saxão, após a luta com Liofa, quanto momentos antes da batalha do Monte Badon. A reconciliação de Artur e Guinevere. A morte de Cuneglas. O momento em que Excalibur é jogada no mar. Bem, acho que vou parar por aqui se não vou transformar esse post num festival de spoilers.
E quanto a você que está curioso para saber o motivo que fez Derfel perder a mão esquerda, ficando “cotoco”, garanto que esse é um outro momento emocionante da trama e que demonstra todo o seu amor incondicional pela sua sempre amada Ceinwyn, a conhecida “Estrela de Powys”.
Enfim, “Excalibur”, à exemplo de “O Rei de Inverno” e “O Inimigo de Deus” valem cada centímetro de leitura.
É isso aí!
04/06/2011
Parede de Escudos – Parte II
Ok, ok... podem me chamar de repetitivo, enganador, chato, até mesmo de um sujeito nada criativo. Tudo bem eu agüento. Mas nada vai me impedir de escrever, novamente, sobre a famosa “Parede de Escudos”. Culpa da trilogia “As Crônicas de Artur”, do grande Bernard Cornwell, principalmente do livro “Excalibur” que fecha a saga arturiana. Na realidade, as temíveis paredes de escudos são elementos indispensáveis do “Universo Cornwell” estando presentes nas suas obras mais famosas: “As Crônicas de Artur” e “Crônicas Saxônicas”.
As pessoas que leram esses livros, com certeza, ficaram curiosas com relação a tática de combate onde guerreiros armados com lanças, espadas ou machados colavam as bordas de seus escudos junto às bordas dos escudos de seus companheiros formando uma muralha quase intransponível. E como fui um ávido devorador de cada página de “O Rei do Inverno”, “O Inimigo de Deus” e “Excalibur”, cá estou eu para bancar o repetitivo e novamente explorar o assunto.
Se você se interessou por esse texto até agora, recomendo que leia antes o post “Parede de Escudos”, no qual explico melhor o que vem a ser essa tática de combate muito utilizada pelos guerreiros medievais. Hoje quero escrever apenas sobre o terror de enfrentar um exército de soldados experientes armados com lanças, espadas e é claro escudos.
Para que você entenda esse pesadelo, imagine sendo transportado através de uma máquina do tempo para 500 d.c e de repente aterrisando no meio de uma batalha entre britânicos e saxões. Então, você olha para frente e dá de cara com cerca de 1.500 homens posicionados em cinco fileiras com 300 homens cada uma; todos eles com escudos travados um no outro, armados com lanças de ponteiras de metal mais afiadas do que navalha. Essas lanças se projetam através de pequenos vãos entre os escudos. Deu pra sentir o drama? O que você faria? Cara! No meu caso, eu.... eu... sei lá. Nem dá pra pensar.
Agora imagine duas paredes de escudos inimigas se chocando numa batalha. Em “Excalibur”, livro que encerra a trilogia “As Crônicas de Artur”, dá pra se ter uma noção do que um evento dessa magnitude representa.
Durante a famosa “Batalha do Monte Badon” onde o exército britânico liderado por Artur enfrentou os saxões comandados Cerdic e Aele, o guerreiro Derfel Cadarn descreve o embate entre duas dessas paredes. “No morro ouvimos os escudos se chocarem. Foi um som seco e raspado, como o trovão debaixo da terra, e era o som de centenas de escudos e lanças golpeando, enquanto dois grandes exércitos se chocavam cabeça com cabeça”, narra o famoso guerreiro e conselheiro de Artur.
Quando as paredes de escudos de dois exércitos adversários se entrechocam, quase sempre as armas longas como espadas e machados se tornam quase impossíveis de serem utilizadas, por isso, os combatentes acabam optando por espadas curtas e lanças que nessas circunstâncias se tornam eficazes e mortais. As espadas curtas servem para golpear por baixo do escudo inimigo, acertando as pernas e as lanças são utilizadas para atacar por cima do escudo.
As vezes uma luta nessas circunstâncias se torna tão aguerrida que os guerreiros inimigos só faltam se beijar devido a falta de espaço para fazer movimentos. Derfel, com freqüência, cita nos livros da trilogia que podia sentir o “bafo” de hidromel do inimigo saxão que estava enfrentando.
As vezes as duas paredes de escudos ficavam tão espremidas que era impossível se movimentar para erguer um braço, então só sobravam para aos guerreiros trocarem insultos, xingamentos e cusparadas, até ganharem o mínimo de liberdade para erguerem a espada e desferirem um golpe no inimigo.
A maioria dos soldados medievais que ousavam tentar romper uma parede de escudos acabava morrendo com uma lança “fincada” na virilha ou então se aposentavam para sempre das batalhas graças a um ferimento incapacitante nos tornozelos ou pernas. Derfel narra em “Excalibur” o terror de uma luta “tête a tête” entre duas paredes de escudos: “Agora eu não tinha espaço para usar a espada, porque estava esmagado – escudo com escudo – contra um homem que xingava e me cuspia tentando passar a espada pela borda do meu escudo”.
Outro motivo que fazia duas paredes de escudos se travarem, era os mortos e feridos das primeiras filas que iam tombando no solo. Derfel diz que muitas vezes a “montanha” de britânicos e saxões agonizantes caídos no chão era tamanha que os dois exércitos eram obrigados a pisar por cima desses moribundos para continuar lutando o que provocava o travamento dos combatentes.
Pois é meu amigo. Quer pesadelo pior do que esse? Topas enfrentar uma paredinha de escudos básica?
Mas para não fugir muito do objetivo desse post que “é” ou pelo menos “era” (acho que acabei me empolgando e fugi do tema) falar do medo ou dilema dos grandes guerreiros em enfrentar uma parede de escudos, quero lembrar que o próprio Derfel considerado um dos mais bravos soldados de Artur tremia de medo antes de encarar uma muralha de lanças, machados, espadas e é claro, escudos! Muitas vezes, ele deixou claro que ao ver a “muralha assassina” pela frente, o seu primeiro desejo era virar as costas e sair correndo. Mas como era um guerreiro respeitado, um verdadeiro lord e líder de vários homens, ele acaba dominando esse ímpeto e partia para a luta. O problema, segundo Derfel vinha depois da batalha, quando os pesadelos entravam rasgando em seus sonhos, dilacerando a alma. Mesmo assim, o personagem que narra a saga arturiana nos três livros da trilogia “As Crônicas de Artur” conseguiu romper algumas paredes de escudos saxônicas. E segundo ele, quando isso acontece, é uma verdadeira glória para o soldado que fica imortalizado através das canções dos bardos.
Na trilogia de Cornwell, também há casos de jovens guerreiros que participaram de sua primeira batalha e logo de cara tiveram de enfrentar uma parede dessas. Derfel conta em “O Inimigo de Deus”, o caso de um lanceiro que estava “se tornando homem agora” que se borrou todo após sair vivo de uma batalha com guerreiros com escudos travados. E quando digo “se borrou todo”, estou usando o termo literalmente.
Não adianta. Pode ser Artur, Derfel, Sagramor, Culhwch, Galahad, Issa, Morfans, enfim o mais valente dos guerreiros vai sentir um frio na espinha ao se deparar com uma parede de escudos. Não escapa nem mesmo os leitores das obras de Cornwell.
Está explicado porque muitos guerreiros se entupiam de hidromel, ficando completamente bêbados antes da batalha.
Enfrentar uma parede de escudos não é fácil! 29/05/2011
Esfera
Imagine um grupo de cientistas isolado num laboratório submarino à mais de mil pés de profundidade com a missão de estudar uma nave misteriosa – supostamente alienígena – capaz de transformar os seus piores medos em realidade. Como bônus, imagine esse grupo de pesquisadores sendo atacados por uma lula gigante, parecida com aquela que Júlio Verne criou em seu romance “20 mil Léguas Submarinas. Ah! Depois do ataque da lula assassina, eles enfrentam ainda uma serpente marinha e algumas medusas que colam no corpo dos mais ousados que resolvem dar uma saidinha do laboratório para explorar o mar. E então? Ficaram com vontade de assistir esse filme? Aqui vai uma recomendação: fujam dele; é péssimo dos péssimos! Troquem, sem pensar, a produção cinematográfica dirigida por Barry Levinson pelo livro de Michael Crichton.
O filme baseado na obra do escritor não tem nada do thriller psicológico com um tempero de terror encontrado no livro, que de fato, vale a pena ser lido.
Esfera foi escrito por Crichton em 1987 e um ano depois seria adaptado para o cinema. O livro é dividido em quatro capítulos: “A Superfície”, “O Fundo”, “O Monstro” e “O Poder”. No primeiro deles, o leitor toma contato com o problema que deverá ser solucionado por um grupo de renomados cientistas: uma nave espacial de dimensões descomunais que se encontra intacta no fundo do mar no Pacífico Sul, há mais de 300 anos. O exército americano acredita que se trata de uma espaçonave alienígena que apresentou problemas e por isso caiu no mar.
Ainda neste primeiro capítulo, é apresentada ao leitor a equipe de cientistas que tentará solucionar o enigma. O time de peso é formado por Norman Johnson (psicólogo), Beth Halpern (Zoóloga e Bioquímica), Ted Fielding (Astrofísico) e Harry Admas (Matemático) e Arthur Levine (Biólogo Marinho). Cada um deles com personalidades distintas. Temos o arrogante, o inseguro, o apaziguador, o retraído, enfim uma verdadeira miscelânea de individualidades. Imagine agora, uma equipe dessas fechada por vários dias num laboratório submarino, com os seus integrantes sendo obrigados a conviverem juntos e mais do que isso, pressionados a solucionar um enigma. Michael Crichton explora de uma maneira profunda os conflitos vividos pelos cientistas, algo que não acontece no filme. Mas apesar da diferença de personalidades, a equipe consegue trabalhar bem entrosada, esquecendo – pelo menos temporariamente o egocentrismo – pensando apenas em desvendar os segredos da espaçonave e da esfera misteriosa que ela carrega em seu interior. Esta esfera, inclusive, tem o poder de transformar em realidade os piores medos que vivem escondidos no subconsciente de cada um dos integrante do grupo de pesquisadores.
Mas o “bicho realmente pega pra capar” no penúltimo capítulo: “O Monstro”, quando algum cientista com um pavor incontrolável de lula deixa os seus pensamentos serem dominado pela esfera que os transformam em realidade. E pronto! Ta feito o estrago. Um monstro gigantesco, parecido com o do livro “20 mil Léguas Submarinas” resolve dar as caras, atacando o laboratório e matando uma oficial que se estava acompanhando a equipe de cientistas. A sua morte é descrita em detalhes por Crichton, causando arrepios no leitor.
No filme de Barry Levinson, a Lula não aparece; a sua forma só é captada através do sonar do laboratório, perdendo um pouco do clima de terror e tensão. Já no livro, Crichton a descreve em detalhes, transferindo o medo sentido pela equipe que se encontra no fundo do mar para os leitores.
Já no último capítulo: “O Poder”, como o próprio nome já diz, os sobreviventes da equipe descobrem que ganharam um grande poder após manterem contato com a esfera da nave que esta no fundo do mar. Depois do resgate, após refletirem, enquanto se encontram na câmara de descompressão do barco da marinha americana, eles decidem usar esse poder de uma maneira inteligente. Acredito que Crichton quis com isso, passar uma lição de vida, do tipo: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Êpa! Acho que ouvi isso em algum filme do Homem Aranha.
Já vou adiantando que alguns membros da equipe de cientistas, morrem e que a espaçonave – que descansa há 300 anos no fundo do mar - não tem nada de alienígena, na realidade o seu segredo é bem diferente e com certeza deixará os leitores perplexos, pelo menos eu fiquei.
Portanto, você que acabou de ler esse post, esqueça o filme e dedique-se à leitura do livro, é muito melhor, apesar de não ser um dos melhores de Crichton.
Inté!
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